O retorno de uma das franquias mais importantes dos videogames aposta em uma nova geração de Belmonts, combates renovados e uma abordagem diferente para a exploração. Mas será que todas essas mudanças fazem justiça ao legado da série?
Após aproximadamente 12 anos sem um novo título da série principal, Castlevania finalmente retorna às suas raízes em duas dimensões com Castlevania: Belmont’s Curse. Desenvolvido pela Evil Empire, estúdio conhecido por seu trabalho em Dead Cells, o projeto representa uma tentativa da Konami de revitalizar uma de suas propriedades intelectuais mais importantes.
Anunciado em fevereiro de 2026, durante as comemorações dos 40 anos da franquia, o jogo procura equilibrar elementos clássicos com mecânicas modernas, apresentando uma nova protagonista, mudanças no combate e uma direção artística que provocou discussões entre os fãs desde sua revelação.
O resultado é uma experiência com qualidades evidentes, especialmente na jogabilidade e na dimensão do conteúdo, mas também com decisões questionáveis que afetam aspectos fundamentais da identidade de Castlevania.
História: uma nova Belmont em uma Paris dominada pelo caos
A história de Belmont’s Curse se passa em Paris, no ano de 1499, aproximadamente 23 anos após os acontecimentos de Castlevania III: Dracula’s Curse e duas décadas depois de Curse of Darkness.
A capital francesa está sendo consumida por uma ameaça sobrenatural. Criaturas demoníacas tomaram suas ruas, enquanto um castelo misterioso está no centro dos acontecimentos.
Diante dessa situação, o bispo de Paris solicita a ajuda de Trevor Belmont, integrante da lendária família de caçadores de vampiros e responsável por uma das derrotas mais importantes de Drácula.
Entretanto, Trevor não está sozinho. Sua filha, Rose Belmont, assume o protagonismo da aventura.
Treinada pelo pai e herdeira do legado de sua família, Rose precisa enfrentar as criaturas que ameaçam a cidade enquanto procura compreender uma maldição que afeta seu braço direito e parece possuir alguma ligação com Drácula.
Antes de se separarem para investigar os acontecimentos, Trevor entrega à filha um conjunto de cartas de tarô deixado por Sypha Belnades. Essas cartas posteriormente desempenham um papel importante na evolução das habilidades da protagonista.
A premissa é interessante e oferece oportunidades para explorar a história dos Belmonts sob uma nova perspectiva. O problema está na maneira como o roteiro utiliza a mitologia estabelecida ao longo das décadas.
Narrativa e cronologia: decisões que desrespeitam o legado da franquia
Um dos aspectos mais controversos de Belmont’s Curse é justamente sua relação com a cronologia oficial.
O jogo apresenta uma quantidade considerável de diálogos, acontecimentos e personagens, trazendo uma abordagem narrativa mais extensa do que normalmente encontramos nos capítulos anteriores da franquia.
Rose Belmont é um dos pontos positivos dessa proposta. Sua personalidade combina certa arrogância e autoconfiança com características que remetem aos protagonistas clássicos da série. Apesar de suas atitudes ocasionalmente provocativas, ela consegue se estabelecer como uma personagem interessante e apresenta um desenvolvimento satisfatório durante a aventura.
Infelizmente, o mesmo não pode ser dito sobre diversas decisões envolvendo os personagens veteranos e a mitologia da série.
A história estabelece acontecimentos que entram em conflito com aspectos importantes da cronologia, especialmente em relação às diferentes ressurreições de Drácula e ao tratamento dispensado a personagens fundamentais.
Alguns nomes conhecidos recebem destinos ou interpretações que podem desagradar profundamente aos fãs mais antigos, enquanto outros são praticamente ignorados.
Trevor Belmont, particularmente, é um dos personagens cujo tratamento causa maior estranhamento. Existem decisões narrativas envolvendo sua participação que parecem incompatíveis com a importância histórica do personagem.
Também chama a atenção a maneira como determinados elementos e nomes de outras fases da franquia são reaproveitados em novos contextos, nem sempre de maneira convincente.
O problema não está simplesmente em apresentar mudanças. Castlevania sempre passou por transformações, especialmente durante o período em que Koji Igarashi ajudou a consolidar sua identidade como uma franquia de ação e exploração.
A diferença é que essas transformações procuravam preservar os fundamentos da série e respeitar sua construção narrativa.
Em Belmont’s Curse, algumas liberdades criativas parecem ignorar justamente esse cuidado.
Talvez a história funcionasse melhor se fosse apresentada como um universo alternativo ou um spin-off, permitindo que os desenvolvedores experimentassem novas possibilidades sem interferir diretamente na cronologia principal.
Para quem conhece profundamente a história de Castlevania, essas inconsistências são difíceis de ignorar.
Jogabilidade: combate competente e muitas possibilidades
Se a narrativa apresenta problemas, a jogabilidade consegue entregar uma experiência consideravelmente mais satisfatória.
Belmont’s Curse utiliza uma estrutura metroidvania, com um mundo extenso dividido em diferentes regiões interconectadas. Cada área apresenta caminhos horizontais e verticais, obstáculos, inimigos, segredos e equipamentos necessários para alcançar novas localidades.
O combate é relativamente simples, mas funciona bem.
Rose possui acesso a diferentes categorias de armas, incluindo espadas grandes, espadas duplas, ataques com os punhos e o tradicional chicote.
Cada categoria apresenta animações, características de dano e particularidades próprias, permitindo escolher equipamentos de acordo com as preferências de combate.
As armas também possuem diferentes níveis de poder. Existem versões mais simples e equipamentos lendários que exigem exploração e dedicação para serem encontrados.
Essa variedade contribui positivamente para a experiência, oferecendo alternativas interessantes durante os confrontos.
O sistema de combate apresenta influências perceptíveis de jogos como Dark Souls e Blasphemous, principalmente na administração dos recursos de recuperação e na importância de reconhecer os padrões dos inimigos.
Entretanto, algumas dessas mudanças também representam perdas em relação à estrutura tradicional da franquia.
Sistema de cura, magias e relíquias
Uma das alterações mais importantes está no funcionamento dos itens de recuperação.
Diferentemente dos Castlevanias clássicos, o jogo abandona o tradicional sistema de itens e utiliza frascos de cura que são recuperados ao descansar nos pontos de salvamento.
Esses pontos são representados por espelhos espalhados pelos cenários.
Ao utilizá-los, Rose recupera seus recursos, mas também faz com que os inimigos derrotados reapareçam.
A protagonista possui três frascos de cura permanentes, quantidade que permanece limitada durante toda a aventura. É possível conseguir frascos adicionais temporários por meio dos inimigos, mas eles não permanecem disponíveis após descansar.
A ausência de melhorias permanentes para ampliar essa quantidade causa estranhamento, especialmente considerando a extensão da aventura e sua dificuldade.
Em compensação, o jogo apresenta um sistema interessante de relíquias.
Rose pode equipar até três simultaneamente, recebendo vantagens e desvantagens relacionadas a atributos como dano, recuperação de vida e utilização de magias.
Essa mecânica permite desenvolver pequenas combinações de equipamentos, oferecendo certo grau de personalização para diferentes situações.
O sistema de magia, por sua vez, está relacionado às cartas de tarô.
Chamadas de arcanos, essas habilidades são obtidas principalmente após confrontos contra chefes e funcionam como uma alternativa às tradicionais subarmas da série.
Uma característica interessante é que os arcanos podem evoluir conforme o jogador completa desafios específicos, como derrotar determinada quantidade de inimigos utilizando uma habilidade.
Além disso, os chefes derrotados passam a integrar as cartas e participam de interações e diálogos com Rose ao longo da aventura.
É uma ideia criativa, que estabelece uma ligação entre o combate e o desenvolvimento da narrativa.
O principal problema é a ausência de um sistema mais prático para alternar entre as magias. Precisar acessar constantemente os menus para trocar habilidades prejudica o ritmo dos confrontos.
Exploração: um mundo gigantesco, mas cansativo
A dimensão de Belmont’s Curse impressiona.
A campanha pode exigir aproximadamente 20 a 30 horas, enquanto jogadores interessados em encontrar todos os equipamentos, segredos e completar os objetivos adicionais podem ultrapassar as 40 horas.
Trata-se de uma aventura extensa, com mapas grandes e diversos caminhos alternativos.
O problema é que tamanho nem sempre significa qualidade de exploração.
Um dos aspectos mais cansativos da experiência é a quantidade excessiva de backtracking, expressão utilizada para descrever a necessidade de retornar constantemente a regiões já visitadas.
Esse tipo de exploração faz parte da identidade dos metroidvanias. Entretanto, nos melhores exemplos do gênero, a estrutura do mapa e os sistemas de viagem rápida ajudam a tornar esse processo mais agradável.
Em Belmont’s Curse, isso nem sempre acontece.
Os espelhos utilizados como pontos de salvamento são relativamente numerosos, mas não oferecem inicialmente um sistema de teleporte eficiente.
Uma funcionalidade relacionada a viagens entre esses pontos aparece mais adiante, mas sua implementação continua pouco prática.
O jogo também apresenta Caronte, personagem conhecido pelos fãs de Castlevania, que permite viajar entre determinadas regiões utilizando sua embarcação.
Entretanto, os locais onde ele pode ser encontrado frequentemente obrigam o jogador a atravessar grandes trechos repletos de inimigos e armadilhas.
Isso torna determinadas viagens desnecessariamente demoradas.
O problema fica ainda mais evidente quando é necessário procurar uma passagem escondida ou descobrir qual habilidade permite avançar.
Sem consultar guias, o jogador pode passar horas percorrendo cenários repetidos em busca do caminho correto.
Explorar é uma parte essencial de Castlevania, mas existe uma diferença entre recompensar a curiosidade e provocar desgaste pela repetição excessiva.
Inimigos, dificuldade e desafios de plataforma
Outro aspecto que compromete a experiência é a variedade limitada de adversários.
Historicamente, Castlevania se destacou por apresentar bestiários amplos, com criaturas inspiradas em diferentes mitologias e no imaginário do horror clássico.
Em Belmont’s Curse, muitos inimigos acabam sendo reutilizados ao longo dos mapas.
A presença frequente de adversários que reaparecem constantemente também contribui para uma sensação de repetição, especialmente quando precisamos atravessar várias vezes os mesmos caminhos.
O sistema de impacto recebido pela protagonista é outro ponto problemático.
Quando Rose é atingida, ela frequentemente sofre um recuo exagerado, conhecido como knockback, que pode interromper movimentos e provocar quedas em áreas perigosas.
Embora esse tipo de mecânica exista desde os primeiros Castlevanias, sua implementação aqui parece mais irritante do que desafiadora.
A dificuldade também recebe influência de outros jogos contemporâneos.
Existem seções extensas de plataforma com espinhos, serras móveis e obstáculos que lembram determinados desafios de Hollow Knight.
Algumas dessas áreas são interessantes, mas outras parecem excessivamente prolongadas.
Os quebra-cabeças seguem uma lógica semelhante. Existem desafios bem construídos, que exigem atenção ao cenário e aos documentos encontrados, enquanto outros dependem de soluções pouco intuitivas.
Os confrontos contra chefes apresentam níveis variados de dificuldade. Alguns são relativamente tranquilos, enquanto outros exigem paciência e domínio das mecânicas.
O maior problema surge quando o jogador morre e precisa refazer longos trechos desde o último ponto de salvamento.
Em determinadas situações, a frustração não vem da dificuldade do combate, mas do tempo perdido até conseguir realizar uma nova tentativa.
Direção artística: bonita, mas distante da identidade clássica
A direção artística de Belmont’s Curse é, sem dúvida, um dos elementos mais controversos do projeto.
Os personagens apresentam um estilo bastante expressivo, com contornos marcantes, animações dinâmicas e uma apresentação visual que remete a produções como Hades e Dead Cells.
Também existem influências perceptíveis da adaptação animada de Castlevania produzida pela Netflix.
Os cenários são bonitos, detalhados e apresentam boa variedade visual. Paris foi reinterpretada utilizando construções históricas, ambientes subterrâneos e elementos da fantasia sobrenatural.
Entretanto, o problema não é a qualidade técnica das ilustrações.
O que se questiona é a adequação dessa identidade visual ao universo de Castlevania.
A franquia construiu sua personalidade artística a partir de diferentes influências, desde os elementos de horror e fantasia presentes nos jogos dos anos 1980 até o estilo gótico refinado que ganhou força com os trabalhos de Ayami Kojima.
Essa identidade foi fundamental para transformar Castlevania em uma referência artística nos videogames.
Em Belmont’s Curse, a mistura de cores vibrantes, personagens estilizados e influências da animação produz uma estética que nem sempre transmite a atmosfera característica dos títulos clássicos.
Isso não significa que o jogo seja visualmente ruim. Muito pelo contrário: existem cenários excelentes e personagens bem desenhados.
A questão é que uma direção artística pode ser bonita e, ao mesmo tempo, não representar adequadamente a identidade histórica de uma franquia.
Para jogadores que conheceram Castlevania por meio da animação da Netflix, essa abordagem provavelmente parecerá mais familiar.
Já para os fãs que acompanharam a evolução visual da série desde os jogos originais, a mudança pode ser bastante difícil de aceitar.
Desempenho técnico: problemas que poderiam ter sido evitados
Apesar de apresentar uma estrutura visual relativamente simples quando comparada a grandes produções tridimensionais, Belmont’s Curse também demonstra problemas de otimização na versão para computadores.
Existem situações em que o desempenho não corresponde ao esperado para um jogo com essas características.
Outro detalhe incômodo são os pequenos carregamentos durante determinadas transições de cenários, que podem durar aproximadamente um a dois segundos.
Individualmente, esses carregamentos parecem insignificantes. Entretanto, em um jogo que exige transitar constantemente entre regiões, eles acabam interrompendo o ritmo da exploração.
São problemas que precisam de atenção por parte dos desenvolvedores, principalmente considerando que a proposta utiliza uma estrutura de gameplay consolidada há muitos anos.
Trilha sonora: uma das maiores decepções
A música sempre foi um dos pilares de Castlevania.
Ao longo de sua história, a franquia construiu uma identidade sonora marcante, misturando influências da música clássica, composições sinfônicas, rock e elementos sombrios que ajudaram a estabelecer sua atmosfera.
Grande parte desse legado está associada a compositores como Michiru Yamane, responsável por algumas das trilhas mais memoráveis da série.
Em Belmont’s Curse, a responsabilidade musical ficou com Danny Asadi, compositor conhecido por seu trabalho em The Rogue Prince of Persia.
Seu estilo incorpora influências da música persa, do trap e da música eletrônica.
O problema não está necessariamente na competência do compositor ou na qualidade isolada de suas músicas.
A questão é que a identidade sonora escolhida parece distante demais daquilo que se espera de Castlevania.
Determinadas composições utilizam uma sonoridade eletrônica e sintetizada que não transmite a mesma atmosfera das trilhas clássicas.
Além disso, considerando o tempo que o jogador permanece explorando cada região, algumas músicas acabam se tornando repetitivas.
Não é incomum passar longos períodos percorrendo o mesmo mapa enquanto uma composição relativamente curta se repete continuamente.
Em uma franquia conhecida por músicas marcantes e memoráveis, essa escolha representa uma decepção considerável.
É importante reconhecer que gosto musical é subjetivo e certamente haverá jogadores que apreciarão essa abordagem.
Entretanto, considerando o contexto histórico da série, a trilha sonora é um dos elementos que mais se distanciam de sua identidade tradicional.
Vale ou Não a Pena Jogar Castlevania: Belmont’s Curse?
Castlevania: Belmont’s Curse é um bom jogo, mas também representa um retorno profundamente controverso para uma franquia tão importante.
A jogabilidade funciona, o combate é competente, existe uma quantidade expressiva de conteúdo e a exploração oferece momentos interessantes.
Rose Belmont também demonstra potencial como protagonista, especialmente por carregar características que remetem aos heróis clássicos da série.
Entretanto, as qualidades não apagam os problemas.
A narrativa toma liberdades questionáveis com a cronologia, a exploração sofre com um excesso de deslocamentos repetitivos, o bestiário apresenta pouca variedade e determinados sistemas parecem ter sido modernizados sem necessariamente representar uma evolução.
Somam-se a isso as mudanças na direção artística e uma trilha sonora que, apesar de possuir suas próprias qualidades, dificilmente corresponde às expectativas de muitos fãs tradicionais.
Talvez o maior problema seja que Belmont’s Curse parece constantemente buscar inspiração em outros jogos e produções, quando poderia ter explorado com mais confiança os elementos que transformaram Castlevania em uma referência para tantos deles.
Isso não significa que todas as mudanças sejam negativas, tampouco que a franquia deva permanecer presa ao passado.
Modernizar uma série clássica é importante. Entretanto, compreender e preservar sua identidade também deveria fazer parte desse processo.
Para novos jogadores, Belmont’s Curse pode representar uma aventura bastante satisfatória, com boas mecânicas e muitas horas de conteúdo.
Para os fãs que acompanham Castlevania há décadas, a experiência provavelmente será mais divisiva.
Veredicto do Zangado Games: um bom jogo, com um combate competente e uma aventura extensa, mas que apresenta decisões controversas e deixa a desejar em aspectos fundamentais da identidade de Castlevania.
O retorno da franquia é bem-vindo. Resta saber se essa nova direção conseguirá conquistar o público atual sem afastar aqueles que ajudaram a construir seu legado.
Vale ou Não a Pena Jogar?
Castlevania: Belmont's Curse é um bom metroidvania, com combate competente, mapas extensos e boas possibilidades de progressão. Entretanto, o excesso de backtracking, as inconsistências narrativas, a repetição de inimigos e uma trilha sonora distante da identidade clássica da franquia comprometem parte da experiência. Vale a pena para quem procura uma aventura extensa e desafiadora, mas os fãs tradicionais de Castlevania podem se decepcionar com algumas das mudanças.